Entrevista a Jorge Rodrigues, gerente da JPR

Numa empresa familiar com mais de 60 anos de história, a importância de uma gestão com visão de longo prazo mas atenta aos desafios do presente é fulcral para garantir o futuro e prosperidade da organização. Esse é o trabalho de Jorge Rodrigues, gerente da JPR, que hoje entrevistamos para que possa ficar a conhecer um pouco melhor o contexto histórico da empresa, o futuro ambicionado e o presente que a define.

Jorge Rodrigues, gerente da JPR

 

A JPR evoluiu muito desde a sua fundação. Como descreveria a atividade da empresa durante as suas primeiras décadas?

A partir da sua fundação em 1956, com as instalações em Braga, a sociedade JPR, constituída pelo seu fundador, José Peixoto Rodrigues, e por um sócio residente em Lisboa, começou a desenvolver a sua atividade com a comercialização de sucata em grande escala, o que, para o efeito, a empresa havia de adquirir e desmantelar 2 navios naufragados. A JPR manteve, durante estes primeiros anos, o negócio de produtos de ferro destinados à agricultura e à construção civil.
A partir da revolução de 25 de Abril de 1974, com o crescimento acentuado das obras públicas e da construção civil, a JPR vai ajustando o seu modelo de negócio, passando a dirigir a sua atenção vocacional para este mercado que floresce.

 

Qual é a JPR que o fundador, José Peixoto Rodrigues, deixa aos seus sucessores?

Os seus filhos mais velhos, mesmo durante a sua formação universitária, vão trabalhando na empresa, percorrendo todos os seus sectores.
Estes, participando a tempo inteiro no final da década de 80, foram assimilando a experiência do Pai no negócio. A sua relação íntima com os colaboradores, o modelo de gestão singular, a sua liderança carismática, o seu trato único com os clientes, a sua vocação social e solidária, foram talvez o maior legado deixado aos seus descendentes. A empresa vai criando espaços de gestão mais definidos, desde logo, com a profissionalização das compras de ferro no mercado internacional, a gestão financeira, os recursos humanos e a gestão comercial.
Nos anos 90, o fundador vai passando, de forma tranquila, a responsabilidade da gestão da JPR aos seus filhos. O sócio de Lisboa cede a sua quota e é criada a filial de Ponte de Lima que passa a cobrir a área do Alto Minho. A estrutura de clientes altera-se com a entrada de grandes construtoras e o volume de negócios regista uma expansão. A área de atuação circunscreve-se maioritariamente no Norte do País, principalmente na região do Minho mas também Douro e Trás os Montes.
Também no desenvolvimento do negócio, reconhece-se a importância do forte pendor social da empresa em Braga e no país. A gestão profissional, levada a cabo pelos 3 filhos do fundador, engenheiros de formação com funções bem definidas, tem vindo a incutir uma cultura de organização e eficiência, procurando manter os valores herdados de seu pai, especialmente os valores da lealdade, solidariedade e integridade, o que constitui, seguramente, uma “vantagem competitiva”. De realçar, ainda, no quadro dos bons negócios, a intensa atividade profissional e pessoal junto dos clientes, criando, e mantendo, amigos e parceiros fiéis.
Prefigura-se a entrada na empresa da nova geração, já iniciada, aliás, com a inclusão na empresa de um neto do fundador, gestor de formação, que vem preparando e introduzindo na empresa conceitos e práticas hodiernas nas vendas, nos recursos humanos e no marketing.

 

Nos últimos anos a JPR levou a cabo alguns investimentos no sentido de estruturar a sua visão estratégica para o futuro. Em que consiste essa visão?

Em primeiro lugar, queremos fortalecer a nossa posição de mercado. Para chegar lá, sabemos que temos de valorizar os nossos colaboradores e os nossos clientes, e é por isso que queremos ser reconhecidos. Contribuir efetivamente para com a sociedade também estará sempre no topo das nossas prioridades, como é exemplo a recente campanha de doação do pedal-puxador, solução sanitária para abertura de portas, um contributo da JPR em tempo de pandemia.
Sabemos que temos de acompanhar a volatilidade do mercado, seja ao nível da exigência dos nossos clientes e até dos nossos colaboradores. Para isso levámos a cabo nos últimos dois anos um conjunto de investimentos por forma a melhorar o bem-estar dos colaboradores – inauguração de um novo parque automóvel, reformulação dos balneários e da cobertura do pavilhão 4 – e para estarmos mais preparados para servir os nossos clientes. Foram e estão ainda a ser reformuladas as estantes de arrumação de materiais, iremos brevemente iniciar a repavimentação do pavilhão 5 de forma a que até ao final deste ano tenhamos todos os espaços pavimentados. Brevemente iremos receber um novo camião para tornar a nossa frota ainda mais versátil. O caminho é de franca melhoria das condições.
Também a responsabilidade ambiental nos tem levado a alguns investimentos: adquirimos 1 empilhador elétrico e em breve iremos receber outro; projetámos cobrir o pavilhão 1 com painéis solares por forma a dotar a empresa de maior sustentabilidade e na cobertura do pavilhão 4 serão instalados painéis sandwich, sinalizando a preocupação com as condições térmicas e de luminosidade no interior do pavilhão. Também conseguimos reduzir o consumo de água em 30% no ano transato e a reciclagem de materiais será obrigatória no decurso deste ano.
Melhorámos igualmente a sinalização de espaços através da instalação de novas placas de sinalização e erguemos duas grandes placas – de ferro, pois claro – para reforçar a comunicação do nosso slogan “Somos de Ferro”.
Também o marketing digital tem merecido a nossa atenção, seja pela reformulação do website e constante dinâmica através do lançamento de novas notícias numa base mensal, dinâmica essa que procuramos manter nas redes sociais, nas newsletters e no SMS Marketing. Está também previsto o lançamento de um novo canal de comunicação com os clientes, o canal WhatsApp JPR.
No campo do Marketing Offline, e porque sabemos que existem clientes que ainda não conseguem acompanhar o digital, colocámos alguns cartazes de parede com o reforço visual daqueles que são os pontos fortes da JPR, criámos o guia de bolso e temos tido uma preocupação constante em melhorar o design dos nossos brindes.
Com tudo isto procuramos estar mais próximo dos nossos clientes e ao mesmo tempo sermos uma marca que acompanha as novas vias e tendências de comunicação.

 

Em termos práticos, como é que a JPR opera atualmente no mercado?

Basicamente, e de uma forma geral, servimos todo o tipo de clientes que trabalhem com os nossos materiais – empreiteiros serralheiros, metalúrgicos, arquitectos e até particulares. Temos consciência do especial enfoque nos primeiros, mas não queremos ficar órfãos das obras de edificação e por isso procuramos ativamente a diversificação da nossa gama de produtos. Prova disso é, por exemplo, a recente aposta em bobines de chapa galvanizada ou o aumento da gama de painéis de malha sol ou de tubulares.
Conseguimos oferecer uma panóplia de serviços que funciona como complemento ao negócio core da empresa – compra e venda de ferro – como serviços de corte e quinagem, calandragem e a dobragem de tubos e perfis finos. Cobrindo aqui mais as necessidades de serralharias sem capacidade para efetuarem este tipo de serviço ou particulares.
Sabemos o que as empresas do Norte precisam e estamos 100% focados nas suas necessidades. Temos uma vasta experiência na cobertura desta área, com especial enfoque no distrito de Braga mas também nos distritos de Vila Real, Porto ou Aveiro.

 

Quais considera serem os grandes desafios para os próximos 10 anos da JPR e de que forma está a ser preparada uma resposta para os mesmos?

Acho que um dos grandes desafios tem a ver com a necessidade de melhorar e/ou automatizar processos. Vai ser preciso as empresas do nosso setor reinventarem-se, fazerem mais com menos, e isto tem uma justificação simples. Por um lado, as dificuldades de recrutamento que já estamos a sentir – e que se agravarão no futuro – obriga a empresa a procurar cada vez mais meios automáticos que substituam o homem nos mais variados processos. Por outro lado, creio que uma das grandes vantagens competitivas que as empresas terão de ter para sobreviver no curto prazo tem a ver com a otimização de processos. Falo em medir, errar e voltar a errar, para depois conseguir “afinar o tiro” e chegar ao ponto perfeito. É nisso que nos tentamos focar mas temos consciência que não só nós, mas grande parte das empresas do nosso ramo tem ainda um longo caminho a percorrer até chegar a esse steady state.
Por último, a evolução da engenharia pode, logicamente, influenciar negativa ou positivamente o nosso negócio. Falo de novos materiais ou novos métodos de trabalho que possam surgir. Há que estar atento e saber acompanhar essa evolução para não sermos apanhados desprevenidos.

 

De que forma a empresa está a lidar com a atual crise pandémica do COVID 19 e qual o impacto que poderá vir a ter no setor de atuação da JPR?

Temos procurado desde o primeiro momento responder assertivamente a todos os desafios que foram colocados, nomeadamente com a criação de um plano de contingência, proteção e segurança de todos os colaboradores e o público que recebemos ocasionalmente nas nossas instalações.
A nível do impacto, felizmente, para já tem sido ligeiro e estou em crer que o setor da construção não será tão afetado como os outros setores. Mas temos consciência que o verdadeiro impacto chegará mais para a frente, com a diminuição do poder de compra, eventuais incumprimentos de empréstimos bancários, falências de empresas, etc.
Felizmente temos aprendido com a história recente e creio que estamos preparados para o pior dos cenários, que espero sinceramente que não se venha a confirmar.